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A história de António Maçanita e vinhos dos Açores é longa e parte da sua ligação familiar, pelo lado paterno, uma vez que o seu pai é açoriano. Após vários projetos de recuperação de castas nos Açores, António juntou-se a Paulo Machado e a Filipe Rocha e em 2014 criaram a empresa Azores Wine Company, com o intuito de produzir vinhos plenos de identidade, retomando o prestígio de outrora da região.

O seu foco desde o início foi a valorização da vinha e do vinho dos Açores. 

Não é possível falar de António Maçanita e vinhos dos Açores sem referir a sua influência através da Azores Wine Company na revolução visível na região sobre o aumento do valor das uvas açorianas que são hoje as mais caras de Portugal, sendo o custo de produção no Pico dez vezes superior ao do Continente, valores semelhantes às mais caras uvas de Napa Valley, Borgonha e Champagne. Pode dizer-se que o aumento do reconhecimento global dos vinhos da região deve-se, em grande parte, à dedicação de António Maçanita nos vinhos dos Açores. Os três sócios persistem ainda na legalização da utilização de vinhas de cheiro, algumas com mais de 150 anos. 

António Maçanita e Vinhos dos Açores

Vinhos dos Açores

Com apenas 20 anos, António Maçanita começou a sua primeira aventura com os vinhos dos Açores. Foi na ilha de São Miguel que tentou plantar uma vinha no terreno do seu tio que acabou por ser completamente abalada e destruída por uma tempestade.

António Maçanita voltou a São Miguel em 2008 para dar formação na Escola de Formação Turística e Hoteleira de Ponta Delgada, a convite de Filipe Rocha com o intuito de levar aos alunos uma nova abordagem sobre os vinhos, nomeadamente sobre os vinhos dos Açores. Este tempo dedicado à escola permitiu a António gravitar com calma pelos Açores.

Essa proximidade permitiu-lhe a descoberta de um campo de experimentação de uma casta autóctone que não conhecia por estar praticamente erradicada, a Terrantez do Pico. Tratava-se de uma casta com apenas 89 plantas na região do Pico, e sem registo de existir nos atuais vinhos dos Açores. Segundo Susana Mestre, a responsável à data pelo terreno onde os Serviços Agrícolas de São Miguel estavam a testar a Terrantez do Pico, esta “era uma casta com a qual não se consegue fazer grande vinho e por isso é que quase desapareceu”.

Os vinhos dos Açores já não contavam com esta casta e a António soou ao desafio que estava à procura. António Maçanita propôs então aos Serviços Agrícolas desenvolver a casta Terrantez do Pico em troca de poder comercializar 80% da produção.

O primeiro Terrantez do Pico de António Maçanita, foi feito em 2010, numa adega com menos de 50 m2, poucas cubas de aço inoxidável, uma prensa de madeira, uma boa limpeza nas máquinas cheias de sujidade e muitos improvisos.

António conta que “Um dia pedi 400 quilos de gelo ao Filipe para arrefecer as cubas e ele conseguiu um camião de gelo das pescas com quase uma tonelada”. A recuperação da casta foi o empurrão que deu início à revalorização dos vinhos dos Açores.

António Maçanita e Vinhos dos Açores

Entre 2010 e 2013, António fez vinhos dos Açores no Pico ainda sob a alçada da empresa Fita Preta. No seu percurso nos Açores, conhece Paulo Machado, da Ínsula Vinus, na altura presidente da CVR Açores. Um convite da associação Adeliaçor e da Escola de Hotelaria para um workshop de Marketing desaguou na preparação de um documento - Estratégia para o Reposicionamento dos Vinhos dos Açores - que incluía uma componente histórica, uma parte genética que reclamava o Verdelho como a casta original, mãe da Arinto dos Açores e Terrantez do Pico e um pacote de horas de consultoria gratuitas para todos os produtores de vinhos dos Açores da ilha do Pico.

O único a querer participar neste programa foi Paulo Machado. Por isso mesmo, António ligou-lhe a perguntar se ele queria fazer um vinho em conjunto. É então na adega de Paulo Machado, que produzem vinhos dos Açores relevantes com outras castas para o mercado como o Arinto dos Açores e o Verdelho o Original que aos poucos começaram a colocar os Açores no mapa. 

Recuperação de vinhas nos Açores

Em 2014, Filipe Rocha junta-se ao duo e criam a Azores Wine Company, começando negociações para alugar um terreno de 32 hectares no Pico. Posteriormente, adquiriram cerca de 50 hectares de vinhas e mais um projeto de recuperação de vinhas nos Açores com cerca de 40 hectares. No total, em 4 anos a empresa recuperou 125 hectares de vinhas nos Açores, na ilha do Pico.

Com as diferentes competências dos três intervenientes, a Azores Wine Company alterou por completo o cenário vitivinícola do Pico, hoje os vinhos dos Açores são muito mais valorizados, e verificou-se uma recuperação de vinhas nos Açores. A título de exemplo, em 2004 as vinhas do Pico foram consideradas Património Mundial da UNESCO e até à chegada da Azores Wine Company, em 2014, foram recuperados aproximadamente 250 hectares de vinho na ilha.

António Maçanita e Vinhos dos Açores

Apenas cinco anos depois da criação da Azores Wine Company, a ilha conseguiu resgatar mais de 650 hectares, atingindo em 2020, 1.000 hectares de vinha plantada, cerca de 10 vezes mais do que em 2004, mas apenas pouco mais de 15% da área que existiu no passado e que deu fama aos vinhos dos Açores, da Ilha do Pico.

A Azores Wine Company está concentrada em conseguir que a história e a cultura em torno do “vinho de cheiro” tenham um reconhecimento e um enquadramento legal. São vinhas com 150 anos de história, com muito potencial subaproveitado e que, bem desenvolvidas e bem cuidadas podem representar uma revolução muito favorável para o produtor de vinhos dos Açores.

Em 2014, a Azores Wine Company lançou um vinho que acabou por ser retirado do mercado: “Isabella, A Proibida”, cuja descrição explicava:

Salvadora e resistente, a rainha Isabella assegurou desde o ataque da filoxera, no séc. XIX, a continuação da vinha e vinho nas ilhas até aos dias de hoje. Para muitos não é vinho! Para nós é cultura, é folclore, é parte dos costumes.

Esta “Isabella a Proibida”, coloca em valor a história dos últimos 200 anos, num vinho elegante, aromático, autêntico e simples, como tudo o que é bom.

A Revista de Vinhos, no âmbito da entrega do prémio Enólogo do Ano 2018 a António Maçanita, declarou o seguinte:

"(...) numa saudável equação de equilíbrio entre vinhos de perceção imediata e outros, menos óbvios, como o primeiro Branco de Talha que fez no Alentejo em 2010, conquistou um lugar merecido entre os enólogos de uma nova geração. Os olhares da crítica haveriam de fixar-se na magnitude do trabalho nos Açores, agora no Pico, onde alavancou um setor adormecido e afirmou-se estrela que guia. Vinhos de território, com lastro de investigação, que resgatam castas que estiveram em risco de extinção (como o Terrantez do Pico), que mostram um perfil que pensávamos não ser possível nas ilhas de bruma – tensos, iodados, de grande acidez e capacidade de evolução. O ressurgimento dos vinhos açorianos tem António Maçanita como protagonista maior e ele passou a dever ao projeto da Azores Wine Company a confirmação das credenciais de investigador, criador, inovador"

Por fim e tão importante quanto o referido anteriormente, é a paisagem da vinha do Pico eleita património Mundial da UNESCO e que consiste em currais (muros de pedra vulcânica) que protegem as vinhas dos ventos fortes e salinos do Atlântico. A Azores Wine Company contribuiu largamente para a revitalização da paisagem, reconstruindo os currais e plantando vinha, de forma a devolver à ilha a sua imagem característica.

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